CABRAL, ALFREDO LUSTOSA - Nasceu em Patos, aos 14 de janeiro de 1883, filho de Silvino de Oliveira Lustosa Cabral e de Maria de Azevedo Cabral. Na sua cidade natal fez os estudos primários. Órfão de pai e mãe aos quatorze anos, decidiu seguir um irmão mais velho, de nome Silvino, que vindo do Amazonas, onde residia, para lá voltaria, depois de cinco meses de descanso na Paraíba. Alfredo Cabral, no Amazonas, conforme sua narrativa, foi seringalista, mateiro, remador, varejador de canoa, cozinheiro, regatão, agricultor e inspetor de quarteirão. Retornando à Paraíba, foi músico, vereador, rapadureiro, adjunto de promotor e professor, diplomando-se pela Escola Normal da Paraíba e exercitando o seu magistério em Patos, onde foi mestre de algumas figuras que alcançariam, depois, projeção nacional, a exemplo do Governador Ernani Sátyro e de D. Fernando Gomes dos Santos. Já na maturidade, aposentado do serviço público, ingressa na Faculdade de Medicina e Odontologia do Recife, por onde se torna odontólogo, exercendo sua profissão em Patos.

B I B L I O G R A F I A

- Dez anos no Amazonas (1897-1907), s/e, s/d, Brasília (2a. edição)(Prefácio de Octacílio Nóbrega de Queiroz)

ANTOLOGIA:

Em março de 1897, chegou a Patos meu irmão Silvino Lustosa Cabral vindo das plagas amazônicas onde passara cinco anos. Grande foi o contentamento da família ao abraçá-lo. Perdido por aquele mundo, sem se ter qualquer notícia, deixava crer que já tivesse ele desaparecido da face da terra.Trouxe no bolso uns gordos cobres que arranjara por lá com ingentes sacrifícios.Foram dias de festa e alegria para todos, sua estada no seio dos irmãos e parentes. Levava o tempo contando as peripécias, os sofrimentos, os gozos e novidades por que passara naquela região. O pessoal, boquiaberto, ouvia estarrecido o desenrolar das narrativas. Uma coisa entristecia: nosso irmão chegara com intuito de passar com os seus apenas cinco meses e voltar àquela terra. Por mais que a família, parentes e amigos o demovessem do plano, mais ele se tornava resoluto, intransigente... Tinha que voltar. Os dias iam-se passando céleres, e eu, a cada momento, ouvia aquelas histórias bonitas, às vezes fantásticas, que ele contava, bem como da facilidade de se enriquecer em pouco tempo. Fiquei logo desejando conhecer tudo aquilo - passeios, viagens de canoa, aves canoras como o irapuru, pássaro quase encantado, caçada, índios, a bicharada. Meu irmão trouxe um cosmorama comprado no Pará com lindas vistas e paisagens de Manaus, Belém, Paris, Viena São Petersburgo, Rio de Janeiro, etc., um encanto para quem as desconhecia e mais um realejo de veio de tamanho regular com boas músicas e variado repertório. Na casa de Chiquinho Sacristão casado com a profa. Quinoca, nossa irmã, onde se hospedara, havia um burburinho doido. Todas as noites reuniam-se moças, rapazes para verem o cosmorama e as músicas harmoniosas do realejo. O vigário, o juiz, o promotor e outras pessoas gradas festejavam a casa do Chiquinho atraídas pela notícia da grande novidade. Tudo era grátis, nada se pagava. O nosso hóspede andava se abeirando aos seus vinte e quatro janeiros e eu contava os meus quatorze completos. Não o largava, queria sempre ouvir suas histórias admiráveis sobre o Amazonas, histórias essas que já me traziam a cabeça atordoada. Um dia tive ocasião de ouvi-lo perguntar se desejava acompanhá-lo para o Amazonas. A resposta foi incisiva, pronta, decidida. Os meus outros irmãos ao terem conhecimento da nova, acharam-me bem criança para enfrentar a viagem e todos a una voce discordaram. Resisti heroicamente alegando não ter mãe nem pai. Vivia sob os cuidados de irmãos. Assim tanto podia morar com um como com outro, todos eram iguais. Silvino era conhecido como um dos melhores cantores de modinhas. Espírito alegre, expansivo, rodeava-se da elite patense e facilmente conseguia improvisar danças quase todas as semanas, sempre em casa do Chiquinho. Patos viveu fase de deliciosa alegria. As visitas de moças, rapazes, parentes e amigos não se faziam esperar, todos ansiosos por conhecerem o Silvino e ouvirem dele as histórias do Amazonas. (Dez anos no Amazonas, 2a. edição, Cap. I, págs 23/24)