Memória
As horas se escoam numa lentidão. Suspendo a leitura do romance, abstraio-me completamente. Não sei por que sinto saudades da infância. Do tempo de menino em Patos. Usava alpercatas de couro de rabicho. Portava baladeira, brincava de cangaceiro. De tarde, jogava "pelada" nas areias escaldantes da cidade. De noite pegava luta de box no coreto da rua Grande. Meu sangue, ardente como a soalheira do sertão. A imaginação, veloz como as águas do Espinharas. Amava a cidade, sua gente, seus costumes, tradições, suas festas. A Festa da Padroeira. Amava a feira, a banda de música de Anésio Leão, as retretas. Encantado, ouvia estórias de trancoso e de lobisomem. Extasiado, adorava as crônicas sobre os combates dos bandos de cangaceiros com a polícia. Cangaceiros famosos que, em correrias alucinantes, enceram de dramaticidade as estradas, cidades, vilas e povoados do Nordeste. Havia mistério na narrativa, um fascínio irresistível. O lobisomem, o cangaceiro, a alma do outro mundo, empolgavam os meninos do meu tempo, davam-nos impressões de ficção e de realismo. Sentado no fio de pedra, permanecia horas inteiras a ouvir as sagas bem urdidas, na voz de minha mãe, de dona Emerentina, de Ana lavadeira. Elas caprichavam na descrição, enfeitavam. Tinham sabor de romance as etórias. Literatura oral das crianças sertanejas. Minha mãe me prendia ao seu regaço, contando aventuras do sertão. Desfilavam bandoleiros, taumaturgos, valentões, Lampião, Antônio Silvino, Bento Quirino, Zé Pereira, Conselheiro, Padre Cícero. Os heróis e os santos da mitologia sertaneja. De legendárias, essas figuras telúricas e carismáticas, avultavam no plano da mitologia. Foi ouvindo tais estórias do misticismo e do cangaço que me iniciei no conhecimento da epopéia regional. Um dia, na praça da Igreja Velha, tive uma prova da violência. A fuzilaria rebentara no meio da feira de Patos. Soldados da polícia atiravam contra feirantes, por um motivo qualquer. Desembainhando peixeiras afiadas, os feirantes reagiam com as faces transfiguradas pela indignação. Aconteceu uma cena primitiva. Correu sangue. Num instante, a fuzilaria silenciara. Os feirantes selvagens, reeditando mil façanhas de seus antepassados bárbaros, que forjaram pelejando furiosamente por causa inglória, se haviam arrojado sobre o reduto policial. Impunham o combate no terreno clássico do sertão, o da arma branca. Antes de se atracarem, deixaram uma dezena de companheiros estirados no chão que os separara da soldadesca. Agarraram-se afinal com esgares, sopapos e furadas. Despedaçaram-se, animalizaram-se, reproduzindo quatro séculos de banditismo ilegal e oficial. No quatro cantos da praça, àquela altura, imperava a conhecida lei da selva com todos os seus artigos e parágrafos.
Terminada a carnificina, o recinto da praça apareceu vazio de gente. Num dos lados, tingidos de vermelho, jaziam cadáveres e agonizavam feridos.
No outro dia, o sino da Matriz levou doze horas badalando em sinal pelas almas dos mortos.
E foi assim, numa manhã de muito sol, que assisti de longe e rapidamente, a uma demonstração do romanceiro trágico do meu povo, ilustração viva da valentia e da ferocidade dos homens, numa sociedade dividida em classes, cuja filosofia é a da força bruta, do dinheiro, do "salve-se quem puder". A sociedade de cobra engulindo cobra.
Até o dia daquela cena, eu ainda não sabia o que significavam as palavras latifúndio e coronelismo. Foram depois o tempo, o Liceu, os livros, a política, a vida, os próprios homens, que se encarregaram de fazer a grande revelação.
(Diário de um preso político, págs. 20/21)