BONAVIDES, ANNÍBAL FERNANDES - Nasceu em Patos, a 14 de julho de 1918, filho de Fenelon Bonavides e Hermínia Fernandes Bonavides, ambos telegrafistas na cidade. Fez os estudos primários na sua cidade natal e iniciou os estudos secundários no Liceu Paraibano, onde foi um dos mais destacados alunos, tranferindo-se, posteriormente, para o Liceu do Ceará, onde os concluiu. Ingressando na Faculdade de Direito do Ceará, ali se bacharelou no ano de 1943. Desde a mocidade revelou pendores para a política e o jornalismo, tendo participado distinguidamente do Congresso da UNE, em 1942. Entre suas atividades jornalísticas destaca-se o exercício dos cargos de Redator-Secretário do CORREIO DO CEARá; Redator-Secretário do jornal UNITáRIO; Redator do jornal O POVO e Diretor-Secretário de O DEMOCRATA, todos da capital cearense. Exerceu a advocacia, dedicando-se, notadamente, à defesa dos interesses dos mais desprotegidos. Em 1962 elegeu-se deputado à Assembléia Legislativa do Ceará, pela legenda do P.S.T., tendo, contudo, seu mandato cassado, em 1964, após a eclosão do movimento militar daquele ano. Escreveu centenas de artigos e reportagens em jornais cearenses alencarina, assim como para outros órgãos da imprensa nacional. Um de seus artigos, versando sobre as lutas populares para a independência do Brasil, mereceu transcrição na imprensa mundial, inclusive no jornal PRAVDA, de Moscou. Simpatizante das idéias marxistas, filiou-se ainda jovem ao Partido Comunista, tendo ocupado o lugar de membro do Comitê Central. Em artigo que escreveu para O POPULAR DEMOCRáTICO, edição de 1º de agosto de 1983, diz o jornalista Fenelon Almeida: "Marxista-leninista, Anníbal Bonavides apontava ao povo o caminho do socialismo científico. Isso valeu-lhe prisão e outras perseguições. Eleito pelo povo do Ceará deputado estadual, a ditadura de 64 cassou-lhe o mandato e o deixou na rua da amargura, sem quaisquer perspectivas de emprego. Foi vender ddicionários entre os seus amigos. Mas continuou a ser bom, não se deixando envenenar pelo ódio. Aquilo serviu apenas para redobrar o seu amor ao povo, retemperar-lhe o ânimo e avivar-lhe a chama da confiança no socialismo. Nos últimos anos, tornou-se livreiro, fazendo de sua livraria "um dos mais ativos centros da vida e da luta democrática do Ceará, naqueles anos opacos em que vivemos sob o terror dos atos institucionais", conforme salientou o deputado Paes de Andrade, ao fazer o seu necrológio da tribuna da Câmara dos Deputados. Deixou um livro de memórias, intitulado Diário de um preso político, no qual narra os dias passados na prisão, após a cassação de seu mandato de deputado, além de registrar outras recordações, inclusive da infância e da adolescência vividas em Patos. Recentemente foi lançado outro livro de sua autoria, misto de ficção e memórias, intitulado As profecias do Arquimedes. Anníbal Bonavides faleceu em 1983, deixando viúva a senhora Aldaísa Viana Bonavides, além de quatro filhos e vários netos.

ANTOLOGIA:

Memória

As horas se escoam numa lentidão. Suspendo a leitura do romance, abstraio-me completamente. Não sei por que sinto saudades da infância. Do tempo de menino em Patos. Usava alpercatas de couro de rabicho. Portava baladeira, brincava de cangaceiro. De tarde, jogava "pelada" nas areias escaldantes da cidade. De noite pegava luta de box no coreto da rua Grande. Meu sangue, ardente como a soalheira do sertão. A imaginação, veloz como as águas do Espinharas. Amava a cidade, sua gente, seus costumes, tradições, suas festas. A Festa da Padroeira. Amava a feira, a banda de música de Anésio Leão, as retretas. Encantado, ouvia estórias de trancoso e de lobisomem. Extasiado, adorava as crônicas sobre os combates dos bandos de cangaceiros com a polícia. Cangaceiros famosos que, em correrias alucinantes, enceram de dramaticidade as estradas, cidades, vilas e povoados do Nordeste. Havia mistério na narrativa, um fascínio irresistível. O lobisomem, o cangaceiro, a alma do outro mundo, empolgavam os meninos do meu tempo, davam-nos impressões de ficção e de realismo. Sentado no fio de pedra, permanecia horas inteiras a ouvir as sagas bem urdidas, na voz de minha mãe, de dona Emerentina, de Ana lavadeira. Elas caprichavam na descrição, enfeitavam. Tinham sabor de romance as etórias. Literatura oral das crianças sertanejas. Minha mãe me prendia ao seu regaço, contando aventuras do sertão. Desfilavam bandoleiros, taumaturgos, valentões, Lampião, Antônio Silvino, Bento Quirino, Zé Pereira, Conselheiro, Padre Cícero. Os heróis e os santos da mitologia sertaneja. De legendárias, essas figuras telúricas e carismáticas, avultavam no plano da mitologia. Foi ouvindo tais estórias do misticismo e do cangaço que me iniciei no conhecimento da epopéia regional. Um dia, na praça da Igreja Velha, tive uma prova da violência. A fuzilaria rebentara no meio da feira de Patos. Soldados da polícia atiravam contra feirantes, por um motivo qualquer. Desembainhando peixeiras afiadas, os feirantes reagiam com as faces transfiguradas pela indignação. Aconteceu uma cena primitiva. Correu sangue. Num instante, a fuzilaria silenciara. Os feirantes selvagens, reeditando mil façanhas de seus antepassados bárbaros, que forjaram pelejando furiosamente por causa inglória, se haviam arrojado sobre o reduto policial. Impunham o combate no terreno clássico do sertão, o da arma branca. Antes de se atracarem, deixaram uma dezena de companheiros estirados no chão que os separara da soldadesca. Agarraram-se afinal com esgares, sopapos e furadas. Despedaçaram-se, animalizaram-se, reproduzindo quatro séculos de banditismo ilegal e oficial. No quatro cantos da praça, àquela altura, imperava a conhecida lei da selva com todos os seus artigos e parágrafos.
Terminada a carnificina, o recinto da praça apareceu vazio de gente. Num dos lados, tingidos de vermelho, jaziam cadáveres e agonizavam feridos.
No outro dia, o sino da Matriz levou doze horas badalando em sinal pelas almas dos mortos.
E foi assim, numa manhã de muito sol, que assisti de longe e rapidamente, a uma demonstração do romanceiro trágico do meu povo, ilustração viva da valentia e da ferocidade dos homens, numa sociedade dividida em classes, cuja filosofia é a da força bruta, do dinheiro, do "salve-se quem puder". A sociedade de cobra engulindo cobra.
Até o dia daquela cena, eu ainda não sabia o que significavam as palavras latifúndio e coronelismo. Foram depois o tempo, o Liceu, os livros, a política, a vida, os próprios homens, que se encarregaram de fazer a grande revelação.

(Diário de um preso político, págs. 20/21)