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Obras Publicadas

Flávio Sátiro Fernandes


Obras Literárias

Festa de Setembro (romance), Letras & Artes, 1996, João Pessoa, 2a. edição.
A Cruz da Menina (romance), s/e, 1996, João Pessoa, 2a. edição).
Geografia do Corpo, (poesias), Unigraf, 1988, João Pessoa.
Augusto dos Anjos e a Escola do Recife - Conferência (1985).
O Pensamento Jornalístico de Epitácio Soares - Discurso de posse na Academia Paraibana de Letras, APL, 1990, João Pessoa.



Obras Jurídicas

Aspectos do Direito Público (Votos e Pareceres no Tribunal de Contas), A União, 1985, João Pessoa, 2a. edição).
Manual do Prefeito e do Vereador s/e, 1984, João Pessoa, 2a. edição.
O Poder de Reforma Constitucional e Outros Estudos, Editora Universitária, 1981, João Pessoa.
História Constitucional da Paraíba, Banco do Brasil S/A, 1985, João Pessoa.
Conheça a Constituição, Editora Universitária, 1995, João Pessoa.


Plaquetas

Dos Crimes Licitatórios , Secretaria do Controle Interno, 1993, João Pessoa.
Prestação de Contas - Instrumento de Transparência da Administração, Separata da Revista de Informação Legislativa, Julho/Setembro, 1995, Ano 32, N. 127.
Improbidade Administrativa, Separata da Revista de Informação Legislativa, Outubro/Dezembro, 1997, Ano 34, N. 136.
Admissões Irregulares de Servidores Públicos e Suas Conseqüências Jurídicas", Separata da Revista de Informação Legislativo, Janeiro/Março, 1998, Ano 35, N. 137.


Artigos Literários e Jurídicos

Publicações nos jornais A União, O Norte, Correio da Paraíba, O Momento, Correio das Artes (João Pessoa), Revistas da Academia Paraibana de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, da Academia Brasiliense de Letras, Revista Pau Brasil (São Paulo), Revista Brasil Rotário, Revista de Direito Administrativo, Revista de Informação Legislativa (Senado Federal), Revista da Comissão de Constituição e Justiça (Câmara dos Deputados), Revista Ciência Jurídica (Belo Horizonte), Revista Jurídica (Porto Alegre), Revista do Centro de Ciências Jurídicas da UFPB, Revista do Tribunal de Contas da União, Revistas dos Tribunais de Contas dos Estados de Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Distrito Federal e Município do Rio de Janeiro.


Composições Musicais:

- Musicalização do poema CONSOADA, de Manuel Bandeira. Composição inserida no CD gravado pelo Coral dos Funcionários do Tribunal de Contas do Estado da Paraíba, com arranjo do Maestro João Alberto Gurgel.

Outras composições (Forró):

- Vou-me embora (Inédita)

- Um açude, major. (Inédita)

- Muito juízo (Inédita)

- Patos do Majó Migué (Inédita)


Algumas das Obras Publicadas




Algumas Opiniões Sobre:



Festa de Setembro

"Seu livro tem alguma coisa que prende o leitor, despertando-lhe o interesse. Creio dever-se ao fato de tomar da vida sem pretensões outras senão a de narrar acontecimentos vividos. Por vezes o tom reflete as indecisões do estreante. Creio, porém, que se você continuar a escrever ganhará facilmente seu lugar na novelística brasileira" (Jorge Amado).

"O autor parte da festa da padroeira em Patos e constrói um bem apanhado romance de costumes, na linha de um Manoel Antonio de Almeida, com a mesma simplicidade, a mesma graça. Há nele também um certo tom irônico que não se parece com a visão humorística de Manoel Antonio mas participa mais de um Eça, pela preocupação estilística, o uso rebarbativo de certos termos e expressões com a finalidade de ironizar o próprio texto.
Observa-se na literatura documentária do Brasil a diferença que há, por exemplo, entre Manoel Antônio de Almeida e Graciliano Ramos. As festas de Manoel Antônio são anotadas como são vistas na simplicidade encantada das pessoas participantes. Em Graciliano Ramos, a FESTA, que aparece em "Vidas Secas", é a visão particular do autor, pessimista, fazendo da Festa um pretexto para uma escalada de sofrimento e injustiça social. Falta-lhe a convivência humana. Bárbaro e isolado.
Esse rapaz da Paraíba, esse escritor, em tudo que o título tiver de mais nobre, esse escritor em costumes é como Manoel Antônio. A festa é pobre, é provinciana, não deve ser levada muito a sério, mas a festa é uma realidade afetiva, envolvendo a todos e todos dela participam pura e ingenuamente. Há mais honestidade nele, portanto, do que em Graciliano." (Virgínius da Gama e Melo)

"Li, ontem, de uma só assentada o pequeno romance de Flávio Sátiro Fernandes, "Festa de Setembro". O seu forte são os costumes, o ambiente, as tricas locais. Seu principal personagem é a própria cidade. Flávio consegue convencer como "criador" de uma cidade pessoa, cidade gente, cidade personagem" (Ernani Satyro).

"Festa de Setembro", livro de linguagem simples, mas de consciência crítica acentuada em relação aos fatos sociais. A festa da padroeira da cidade, motivo do enredo do livro, evidencia o jogo de interesses dos poderes econômicos e políticos locais. A narrativa obedece aos padrões tradicionais de se contar linearmente uma história com princípio, meio e fim. As personagens são flagrantes satíricos da política local que denunciam a corrupção das eleições e a ignorância do povo frente às fraudes eleitorais". (Do verbete "Fernandes, Flávio Sátiro", in Dicionário Literário da Paraíba)


Geografia do Corpo

"Geografia do Corpo" privilegia o fazer do texto, ora concebido como experiência individual, ora fertilizado pelo cotidiano. De linguagem concisa e estrofes densas, seus poemas exemplificam a nova realidade literária em que se toma consciência da relação arte/existência, arte/contexto. Seu esforço pela precisão na composição do discurso transfigura o universo social, do ponto de vista estético. É o artista refletindo sobre a arte e o seu próprio trabalho, construindo uma poesia racional, anti-retórica, atenta ao brilho e à textura da palavra". (Do verbete "Fernandes, Flávio Sátiro", in Dicionário Literário da Paraíba)


A Cruz da Menina

"Que belo livro é A Cruz da Menina!" (Josué Montello, da Academia Brasileira de Letras).

"Oh, desde aquele café do velho Jizé Jirónimo, com coalhada e rapadura, a gente começa a gostar do seu romance, sem desmerecer a coalhada com rapadura" (Herberto Sales, da Academia Brasileira de Letras).

"A Cruz da Menina é um romance bem construído e bem escrito. A Paraíba e, com sua terra, as nossas letras podem proclamar que contam com um romancista no verdadeiro sentido da palavra" (João de Scantimburgo, da Academia Brasileira de Letras).

"A Cruz da Menina revela um autor inspirado, como, aliás, revelam suas outras obras. Parabéns." (Arnaldo Niskier, da Academia Brasileira de Letras).

"Uma narrativa de costumes do melhor quilate literário. Foi uma gostosura atravessá-la do início ao fim, integrado na substância dos seus personagens, todos tão repassados de veracidade que a mim mesmo pareceu que restaurava o velho sertão nordestino, que tanto conheci, quando nele vivi meus verdes anos já tão distantes." (Ascendino Leite).







A CRUZ DA MENINA

Prólogo


O velho Jizé Jirónimo parecia não sentir o fardo de seus oitenta anos. Lépido e disposto, era o primeiro a se levantar e a dar início à labuta diária, em seu pequeno sítio, a cinco quilômetros dos Patos, aproximadamente. Não sofria das queixas que, costumeiramente, se acercam das pessoas de sua idade. Quando a claridade começava a rasgar a madrugada, já o encontrava no curral, tirando o leite que algumas vaquinhas lhe davam e que ele vendia na cidade à sua freguesia. Oitenta anos? indagavam as pessoas, surpresas, revelando incredulidade até. Não tem quem dê! - comentavam admiradas. Não tem quem dê, não! Não tem quem tire! - redargüia o velho Jizé Jirónimo, abrindo-se em largo sorriso, orgulhoso da idade que tinha e do vigor que demonstrava. Coçava, então, a cabeça, onde não se via um só fio de cabelo branco, sem qualquer tintura.

Naquele dia, porém, um sábado, ao se dirigir ao curral, ainda escuro como breu, o velho agricultor levava consigo uma ponta de desgosto e tristeza. Desde o dia anterior, constatara o desaparecimento da melhor e mais bonita ovelha de seu pequeno rebanho. Vasculhara todo o sítio, indagara dos vizinhos, todos amigos, procurara nas cercanias, mas não obtivera nenhum sinal da criação. Só podia ter sido furtada. Havia muito furto de gado, ultimamente, nas redondezas. Boi, vaca, bezerro, cavalo, jumento, cabra, ovelha, até galinha, nada escapava aos ladrões, que, afoitos cada vez mais, costumavam vender, na feira dos Patos, os animais subtraídos. Na segunda-feira vindoura, se a ovelha não aparecesse, Jizé Jirónimo iria bater a cidade todinha, para ver se descobria sua querida e valiosa criação, de raça. Foi pensando em tudo isso que realizou, naquela madrugada, o trabalho de ordenha. Voltou, depois, para casa, carregando o leite dos fregueses. Já o filho arreara o jumento, pronto para a viagem até a cidade. Hoje, eu vou levar o leite, disse para o filho. Queria espairecer, distrair-se, livrar-se da tristeza que o invadia. Não conseguia afastar a lembrança da ovelha raçada. A entrega do leite, talvez, o pudesse entreter, fazendo-o esquecer, por momentos, o triste fato. No fundo mesmo, o que ele desejava era desabafar, contar a amigos e conhecidos a sua desdita.

Sentou-se à mesa para o café. Coalhada com rapadura, cuscuz com leite, bolacha Regalia, especialidade da Padaria Esperança, de Seu Augusto Tavares, nos Patos, a melhor da cidade. "Asseio e presteza", estava escrito no frontão do estabelecimento. Por último, o café cheiroso, a acompanhar cada bolacha, coado com carinho e arte por sua mulher, que também o seguia no madrugar diário. Durante o café, Das Dores lhe tentava infundir confiança. A ovelha haveria de aparecer. Deus é grande. Rezara, antes de dormir, a Nossa Senhora da Guia. Tenho fé em Deus que, mais cedo ou mais tarde, ela volta - insistia, crédula. Jizé Jirónimo, entre um gole e outro, deixava-se encher das esperanças com que a mulher lhe acenava. Carregado delas, levantou-se, encaminhando-se para o terreiro da casa. O jumento tá pronto, pai - disse-lhe o filho. Jizé Jirónimo ajeitou-se como bem lhe permitia o vasilhame do leite e deu partida, rumo à cidade.

Durante todo o trajeto, o animal caminhando pelo aceiro da estrada de rodagem que levava dos Patos a Pombal, Jizé Jirónimo não se descurava da paisagem à sua frente. Àquela época do ano, a vegetação xerófita desnudara-se de folhas, os galhos secos estendendo suas mãos para os céus, como que a suplicar a chegada urgente das chuvas. Novembro estava se aproximando e, com ele, dezembro. Se o inverno fosse bom, antes do início do novo ano as primeiras chuvas cairiam e com elas se operaria o milagre da folhação, o verde inundando o campo, o gado se fartando na babugem forte. Porém, mesmo naquela época, fim de outubro, a paisagem tinha sua beleza. A vasta planície, em meio da qual se avistava a outrora chamada Imperial Vila dos Patos, refletia em tons claros e brilhantes a luz radiosa que o sol lhe derramava àquela hora da manhã. Ao longe, sobre a linha do horizonte, alteava-se a chapada da Borborema, que tomava diferentes nomes, conforme as regiões que atravessava: Serra do Teixeira, Serra das Espinharas, Serra das Preacas, Picotes, Pilões, Serrota, Aba, todas no rebordo oriental do planalto.

De vez em quando, um animal pequeno atravessava, correndo, a estrada. Preá, camaleão, raposa, gato selvagem, mocó, eram os que mais costumavam surgir nas horas primeiras da manhã. Cobras, também, apareciam, nos seus ziguezagues, desde as temíveis jararacas e cascavéis, até outras, menos perigosas ou inofensivas - cobras de veado, salamandras, cobras-verdes, papa-ovos. Nas incontáveis vezes em que fizera o percurso até a cidade, raro o dia em que Jizé Jirónimo não avistara um ou outro daqueles animais. Nada, contudo, se comparava ao concerto matutino que a passarada oferecia. O velho Jizé Jirónimo ouvia, absorto, a orquestração sublime. Conhecia cada canto e cada nota. Para ele era fácil distinguir os diferentes gorjeios. Galo-de-campina, canário, bem-te-vi, sabiá, juriti, concriz, e outros mais, enchiam a manhã com seus suaves trinados. Embalado com a melodia agreste, Jizé Jirónimo quando viu tinha chegado nos Patos, o lugarejo despertando preguiçosamente.

A primeira casa onde entregou o leite foi a do Major, como era conhecido o chefe político da localidade, seu compadre e amigo, apesar de rico e importante. Olhe o leite! - gritou no portão de trás, que logo se abriu, a pretinha Chica mostrando os trinta e dois, branquinhos como neve, a realçarem em sua face de ébano.

- Quem está aí? - indagou uma voz grave, ainda no interior da casa.

- É Seu Jizé Jirónimo - respondeu a pretinha, sem perder o sorriso.

- Bom dia, compadre Jizé - saudou o Major, aproximando-se do portão. Como vai? E a comadre? O afilhado tem dado notícias? - Queria saber do filho mais velho de Jizé Jirónimo, seu afilhado de batismo, que, casado, fora morar no sítio do sogro, no interior do Rio Grande do Norte.

- Vou bem e a patroa vai indo, graças a Deus. O menino, eu tive notícia dele por um amigo meu que veio de lá, sumana passada. Está sastisfeito, graças a Deus. Quando ele vier aqui, vem tomar a bença ao padrinho.

- Alguma novidade, compadre? - insistiu o Major, óculos na testa.

O compadre até parece que adivinha, pensou consigo o leiteiro. Contou-lhe do desaparecimento de sua melhor criação. Arrependeu-se. Melhor teria sido ficar calado. O Major danou-se a fazer perguntas, como era de seu feitio. Quando se dera o desaparecimento da ovelha? Como ele notara a sua falta? Já procurara nas vizinhanças? O animal era bonito? Quantos quilos pesava? Já dera parte ao Delegado? Precisava de algum adjutório junto àquela autoridade? E outras perguntas mais. Era assim o Major. Gostava de perguntar. Perguntava, às vezes, coisas sem nexo e sem qualquer razão de ser. Mas Jizé Jirónimo, compadre e amigo do Major, há muitos anos, além de seu correligionário político, conhecia as manhas do chefe. Sabia que com duas ou três perguntas ele se escafederia. Gostava de perguntar mas não gostava de responder.

- E as eleições, Major? Quem vão ser os candidatos? Quantos lugares o senhor vai dar à oposição no Conselho? - disparou Jizé Jirónimo, à queima-roupa.

Foi o quanto bastou para o Major deixá-lo em paz, acabando com o interrogatório. Sem responder a qualquer das indagações do leiteiro, despediu-se com um "até logo" e desapareceu no interior do casarão.

Jizé Jirónimo chegou à residência do coronel Geminiano Mendes, abastado comerciante e dono de um mecanismo de descaroçar algodão. O coronel chegara aos Patos há vários anos. Corria a versão de que andara metido em um movimento sedicioso no brejo paraibano, em fins do século passado e que, perseguido pela polícia, dera com os costados naquela cidade, onde casou e constituiu família. Aliás, em constituir família o coronel era perito. Já casara cinco vezes. Das quatro primeiras mulheres enviuvara, mas não era homem de cultivar a solidão, de viver no descampado das convivências. Das quatro companheiras tivera grande prole, toda ela já encaminhada na vida, até filho doutor e militar, integrados à medicina, ao bacharelismo, ao oficialato.

A quinta e última mulher do coronel era uma mulata que fora escrava de seu pai. Somente uma negra é capaz de agüentar o seu rojão, observara-lhe um médico do Recife, a quem consultara e a quem confidenciara que dava quatro ou cinco sem tirar de dentro. Acatando o conselho do facultativo pernambucano, o coronel Geminiano Mendes casou-se com Iluminata, negra fornida, de braços e pernas bem torneados. Iluminata vinha agüentando o rojão, conforme assegurara o médico do Recife. Só não lhe dera filho, maninha. Mas o coronel não desanimava. Talvez um dia ela ainda emprenhasse - manifestava-se, esperançoso.

Iluminata veio receber o leite. Seu Jizé desfiou a mesma cantilena sobre a ovelha desaparecida. A mulata dirigiu-lhe palavras de ânimo. O importante é ter fé, sentenciou, despedindo-se do leiteiro.

-Minha bença, Padrim Padre - cumprimentou Jizé Jirónimo o sacerdote velhinho que o recebeu à porta da casa paroquial, cinqüenta anos à frente do rebanho de fiéis da Paróquia de Nossa Senhora da Guia. Todos da cidade o chamavam de Padrim Padre. Pediam-lhe a bênção e ele a todos respondia com paciência - Deus abençoe!

- Não há de ser nada, sua ovelha haverá de aparecer, com a graça de Deus - dirigiu-se a Jizé Jirónimo, quando este lhe falou de sua aflição - e quando isso ocorrer haverá mais alegria em sua casa do que pelas outras ovelhas que estão no cercado - vaticinou, biblicamente.

- Bom dia, Dona Juvência - saudou Jizé Jirónimo, admirado de não ver o velho Manduri na porta de casa para receber o leite, como fazia todos os dias.

- Nem lhe conto - disse Dona Juvência, abaixando a voz e revelando: - O velho, hoje, está de lundu.

- Virgem Maria, será que está doente! - preocupou-se Jizé Jirónimo.

- Que nada, seu Jizé. É só lundu, eu conheço. Mais tarde ele melhora - concluiu Dona Juvência, governanta da casa de Seu Manduri.

O velho Manduri, espirituoso e gracejador, vez por outra tinha desses achaques do espírito. Ficava embirrado e nem parecia o conhecido proseador, a invectivar com seus chistes e pilhérias os figurões do lugar. Nem o Major escapava de suas caçoadas. Certa feita, com a chegada das chuvas de inverno, Manduri subiu ao telhado de sua casa para tirar goteiras que na noite anterior molharam salas e quartos. Quando ele, do alto onde estava, avistou o Major, que se aproximava com seu passo calmo, óculos na testa, pensou logo na inquirição que o chefe político iria fazer. Velho perguntador, tem dia que só pergunta besteira, pensou consigo. Naquela manhã, porém, o Major não passou da primeira indagação. Com a resposta que o amigo irreverente lhe deu, ele escapuliu em direção à Mesa de Rendas, de que era o administrador. - Bom dia, Manduri, que está fazendo aí em cima? - Um açude, Major. Havia um sem número de anedotas desse tipo com Manduri. Naquela manhã, contudo, ele estava de lundu. - Quem tem motivo para estar de lundu sou eu, Dona Juvência - observou Jizé Jirónimo, dando conta do desaparecimento da ovelha. A mais bonita, a mais mimosa, Dona Juvência - completou.

- É uma pena, seu Jizé, mas não se aperreie, não. Ela vai aparecer.

- Queira Deus - despediu-se o leiteiro.

Dirigiu-se para a casa de Doutor Imperiano, Juiz de Direito, há mais de trinta anos. A empregada veio receber o leite, mas o Juiz não deixou de dar dois dedos de prosa, como de costume. Gordo, uma pança enorme, suspensórios a segurarem a calça, carregava o apelido de Barriga de Soro. Talvez o excesso de peso fosse o principal fator que o impedia de tocar para a frente os processos que lhe chegavam às mãos. A maior parte do dia passava em uma rede, armada no quarto dos fundos de sua casa, a ler jornais do Rio de Janeiro e do Recife, que chegavam por via postal. Diariamente, seu Porfírio, agente dos Correios, trazia os pacotes de jornais destinados ao Juiz. Pelas prateleiras da estante, próximo à rede, e até pelo chão, amontoavam-se os processos sem qualquer despacho, eterna dor de cabeça dos advogados que se aventuravam a postular na Comarca. Católico praticante, assistia a missa todos os dias, acompanhado de Dona Quitéria, santa criatura, os dois a formarem um casal de beatos militantes. Àquela hora, Doutor Imperiano estava de saída para a igreja, mas ainda deu os dois dedos de prosa, tempo suficiente para tomar conhecimento da desdita de Jizé Jirónimo. Não se preocupe, não, seu Jizé! Eu e Quitéria vamos rezar para que sua ovelha apareça - prometeu o magistrado.

- Deus queira, Doutor.

Já na saída da cidade, no caminho de volta, Jizé Jirónimo fez a última entrega, na casa de Seu Benedito, chefe da Usina de Luz. Apeou-se do jumento, bicho disposto, companheiro leal, irmão de trabalho, como costumava se referir ao animal.

- Olhe o leite! - gritou.

Dona Raimunda o veio atender, bons dias pra cá, bons dias pra lá, a conversa desaguando, logo, no desaparecimento da criação. A freguesa lamentou, fez votos de que o leiteiro encontrasse a lanzuda o mais depressa possível. Seu Benedito não estava em casa. Já fora para a Usina receber um carregamento de óleo, que chegara pela madrugada.

- Ah, seu Jizé, nem lhe conto - disse-lhe Dona Raimunda, preocupada. O senhor não sabe aquela menina aqui de casa? - perguntou.

- Sei, sim, Dona Raimunda, como havera de não saber - explicou seu Jizé Jirónimo. - Não é ela que recebe o leite todo dia, de manhãzinha? - acrescentou.

- Isso mesmo. Pois nem lhe conto. Desde anteontem que ela está desaparecida.

- Virgem Maria, Dona Raimunda. Agora se aconteceu alguma desgraça com a pobrezinha!

- Disseram a Benedito que ela tinha sido vista com uns ciganos, lá pras bandas do riacho do Frango. Benedito fretou o carro de Isidro e foi lá. Chegou a ir até Santa Gertrudes mas nada da menina.

- Será que aconteceu alguma desgraça com a pobrezinha - repetiu o leiteiro.

- Sei não, seu Jizé, nem sei o que pensar. Também aquela menina era muito trelosa. Eu e Benedito, a gente vivia pelejando para dar jeito a ela e nada... Seu Jizé, se o senhor tiver notícia de Francisca me avise.

- Aviso, sim, Dona Raimunda, pode ficar sossegada. Bom dia pra senhora e pra Seu Benedito.

Na viagem de volta, o velho Jizé Jirónimo, mais descontraído, deixava-se tomar das esperanças com que lhe haviam acenado as pessoas com quem conversara. E as revia, com leve sorriso. O Major com suas perguntas insistentes, mas furtando-se a responder a qualquer indagação que lhe fosse feita. Dona Iluminata, a ex-escrava e, agora, esposa do coronel Geminiano Mendes. Seria verdade o que o povo dizia do coronel, que ele dava quatro ou cinco sem tirar de dentro? Duvidava. Padrim Padre, este era um santo, cinqüenta anos como vigário, já cansado, sem forças, quase, para conduzir o seu rebanho. Fora ele quem o casara com Das Dores e batizara todos os filhos do casal. Doutor Imperiano... uma pessoa só podia ser boa até ali, melhor não podia haver. Havia, sim, retificava-se, depressinha, Jizé Jirónimo, lembrando-se de Dona Quitéria, esposa do Juiz, uma verdadeira santa, só faltando para tanto o altar e o resplendor. Lamentava-se Jizé Jirónimo de não ter visto Manduri. Gostava de ouvir o velho, com suas piadas, suas ironias, suas irreverências, andando às turras, agora, com os Pires, família numerosa cujos membros eram metidos a arruaceiros. Mas Manduri naquele dia, dissera Dona Juvência, estava de lundu, apoquentado, em seu quarto, sem sair de casa, sem ânimo para nada, amofinado. Não quisera perguntar o motivo dos queixumes de Manduri. Por fim, Seu Benedito e Dona Raimunda, angustiados com o desaparecimento da menina. Aperreio mil vezes maior do que o seu, com a falta da ovelha, devia ser o do casal com o sumiço de Francisca. A menina era muito trelosa, assegurara Dona Raimunda. Talvez tivesse fugido, se metido com os ciganos. Há poucos dias, ele mesmo vira um grupo deles, quando passavam pela rodagem, com destino aos Patos.

Assim pensando, inteiramente distraído, seu Jizé não viu o tempo passar e quando menos esperou estava em casa. Gritou pela mulher, que acorreu, pressurosa:

- Que é isso, criatura de Deus, pra que tanto alarme?

- Que alarme, que nada! Cadê a ovelha, apareceu?

- Apareceu coisa nenhuma - respondeu a mulher, desanimada.

O filho estivera no roçado, dera uma busca lá pelo açude e nem sinal...

Jizé Jirónimo sentou-se em um tamborete, o cigarro de palha no canto da boca, o olhar no chão, matutando.

- Ô Jizé! - chamou Das Dores, à porta de casa. Tem uns arubus avoando por riba daquele lajeiro. Será alguma carniça?

- Valha-me Deus! Agora se é a lanzuda que morreu! - Olhou na direção apontada pela mulher. As aves voavam em círculos, a umas quatrocentas braças de sua casa. Jizé Jirónimo reuniu força e ânimo para ir ao local. Não queria nem pensar na hipótese de ser a sua ovelha. Seria um choque muito grande para ele. Apesar de tudo, marchou em direção ao lugar. Pela posição em que se achavam os urubus, o ponto por eles visado era um pequeno serrote, onde algumas pedras formavam cavidades profundas. Jizé conhecia muito bem o sítio. A criação, certamente, caíra ali e não mais conseguira sair. Quebrara, sem dúvida, uma perna e não pudera se levantar nem tampouco se retirar do local, morrendo pouco depois. Era o que podia imaginar. Uma dor trancava-lhe o peito, fazendo mira em seu coração. Olhando para as reentrâncias das pedras, já sentindo o odor fétido que de lá emanava, custou a Jizé Jirónimo atinar com o que realmente ali caíra. Mas logo teve uma certeza. Não era a ovelha. Forçando mais a vista, percebeu que o corpo caído não era de animal, mas, ao contrário, um cadáver humano, com certeza, de menina, a julgar pelo tamanho e pelos panos que o cobriam. Jizé Jirónimo benzeu-se, fazendo o Em nome do Padre e pôs-se a descer o serrote, correndo, e quase se esparramando ao chão. Chegou em casa esbaforido, gritando pela mulher, que já o aguardava, aflita.

- Valha-me, Nossa Senhora! Parece que viu alma, Jizé.

- Pior, Das Dores, pior! Tem um defunto morto, lá nas pedras do serrote, já apodrecendo.

- Virge Maria, quem será? Tome um copo dágua, homem, se acalme, não se avexe não.

Enquanto tomava água, Jizé Jirónimo pensava no que fazer. Mandou o filho, que já voltara do roçado, selar o cavalo e ir a todo galope, à cidade, comunicar o fato ao Delegado. Fosse no cavalo, que era mais ligeiro. O Delegado devia estar em casa. Não dissesse nada a ninguém, só a ele. Dava as determinações, ainda arfante, o coração lanceado, batendo forte. Mais calmo, passou a comentar com a mulher a ocorrência. Quem seria a menina? Como chegara ali? Talvez não sabendo andar pelo rochedo, caíra naquela greta e não pudera mais sair ou mesmo morrera logo ao cair. A mulher, mais suspicaz, aventou uma hipótese.

- Isso tá me parecendo outra coisa, Jizé. Essa menina só pode ter sido jogada lá, por alguém.

- Será? - perguntava, incrédulo, Jizé Jirónimo.

A suposições variadas se entregava o casal quando foi surpreendido por um forte e conhecido balido. Precipitaram-se marido e mulher para o terreiro e quase não acreditavam no que viam. Sã e salva, bonita como nunca, a ovelha, a lanzuda, a criação, a ovina, em carne e osso, robusta e disposta, como quem não passou por maus tratos ou necessidades. Não contiveram as lágrimas. Abraçaram-se, rindo e chorando ao mesmo tempo, emocionados a mais não poder. Milagre! Milagre! gritavam. Apertaram a criação em estreito abraço, afagando-a, alisando-a, beijando-a. E mais tempo teriam passado naquelas efusões não fosse a chegada de alguns soldados do destacamento policial.

Rumaram todos para o serrote, à exceção de Das Dores.

- Minha natureza não dá pra ver essas coisas - desculpou-se. - Me dá logo uma gastura.

Ao fim da tarde, os despojos da menina foram levados para a cidade.


(Fim do PRÓLOGO)







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