Poesias

(do livro "Geografia do Corpo", de Flávio Sátiro Fernandes)





Geografia do Corpo
O Aprendiz de Sapateiro
Ofício da escrita
Maternidade
Rei do Mar
A Paz Não Está Tão Longe
Paisagem de Guima
Ode aos noventanos
O Ponto de Cem Réis
Toilette






Geografia do Corpo

                Seu corpo tinha culminâncias imprevistas.

                Dois montes de areia movediça
                mas que sustinham no cume
                minúsculas ocorrências rochosas.

                Ao pé dos montes situava-se a depressão,
                com pequeno lago ao meio
                de formação plistocênica.

                Além, entre paredes em erosão,
                jorrava a fonte, ora límpida ora turva,
                a correr, em seguida, por entre sombria floresta.

                Do outro lado da floresta
                alteava-se íngreme desfiladeiro
                e, após, estendia-se a costa.

                Da costa, por leste ou por oeste,
                era fácil chegar de novo
                aos montes de areia movediça
                mas que sustinham no cume
                minúsculas ocorrências rochosas.

                Seu corpo tinha culminâncias imprevistas. 

O Aprendiz de Sapateiro



Bate o prego no salto, o prego salta o martelo na sola, o martelo ao solo, a faca afiada a chiar na sola, a forma, a sovela, a linha escassa. Não passe o sapateiro além do chinelo. Sola, meia-sola, salto, brocha, alicate, prego, brocha, a palmilha pisando firme no compasso do martelo. Sola, meia-sola, sapato, salto, salto para a morte.

Maternidade

A Eliane Vagidos de silêncio enchem teu ventre, enquanto esperas, ansiosa, o instante de lágrimas e de nervosos risos Mas, transposto o momento de incertezas, descansarás, terna e bela, ao meu lado na contemplação de um novo dia que nasce

Rei do Mar

Mar. Mar de areia. Areia do mar. Sereia do mar. Dois seres na areia do mar. (ou no mar de areia?) Sou eu a amar. a sereia do mar. Serei rei do mar.

Paisagem de Guima

O pássaro, em vôo sereno, conquista, do alto, o quanto existe de luz e de esperança nesse verd'água sublime.

Ode aos noventanos

Ao meu pai, nos seus noventa anos. O tempo é rio por onde flui o existir. A energia que podia se extinguir renasce, tocada pelas asas das borboletas que, na manhã clara, se libertam do capulho alvinitente do algodoal. No mimetismo geográfico, a compreensão dos mistérios que a alma revolve no seu dia-a-dia. Viver é o desafio. A casa é o desafio. O pão é o desafio. Andar é o desafio. Ver é o desafio. Ouvir é o desafio. Vida de vaidade despojada. Verdade em aço forjada.

Ofício da escrita

Sento-me à máquina e tento vencer, numa hora imprópria para menores, o desafio da folha em branco. Se as letras não saltam, não adianta fazê-las pular da esfera. Penso que o defeito é da máquina e não da mente que emperra. Forço novamente a escrita e as palavras se espalham cheias de bolor. Armo-me com uma chave de fenda e desparafuso as teclas e a barra com que preencherei os espaços da memória. O carro já não anda, a não ser quando eu engato a marcha-retrocesso de volta à vida. A esta altura, a máquina não é mais que um montão de letras delirantes em ordem (an)alfabética. Como recompor o que a vida mecânica teima em manter sob o jugo do espírito? Jogo para o alto os tipos enferrujados e eles caem de papo pro ar. No caos maquinário e digital, restam, apenas, o til, o circunflexo, o grave e o agudo acento e mais a crase limpa, de uso racional, entre parênteses que se derramam tristes, prendendo o que resta de mim na folha branca, desafiadoramente branca.

A Paz Não Está Tão Longe


Inúteis as conferências de paz, os acordos, os ajustes e tudo mais. Como desarmar as potências sem, antes, desarmar os espíritos? Inúteis as conversações bilaterais, nas mesas redondas (ou quadráticas?) e tudo mais. Como evitar a explosão atômica sem, antes, conter a explosão das consciências? Não procure o homem a paz em conciliábulos multipartites. Para encontrá-la não é preciso ir a Versailles, Genebra, Washington, Moscou, Cabo Frio ou Tambaú. No dia em que cada um de nós encontrar a sua paz, aí, sim, a columbina ave abrirá suas asas sobre a humanidade.

Ponto de Cem Réis(*)

O Ponto de Cem Réis é a cara do funcionário público aposentado. Veste a roupa do funcionário, calça as sandálias do funcionário, adormece com o funcionário, ouve o funcionário, fala pelo funcionário. Será que o governo vai dar aumento? Aumento do preço da carne aumento do preço do leite, aumento do preço do pão, do preço do arroz, do preço da farinha. Do preço do feijão, da água, da luz, do telefone. E o salário minguando... O funcionário aposentado é a cara do Ponto de Cem Réis. Veja aquele moreno magro, comprido e desmantelado, como o Edifício Régis. O gordo que está na esquina parece o prédio do IPASE (hoje INPS). E o velho que ali está? - O Café Alvear. E a velhota rechonchuda? - O viaduto. Mas há naquela azáfama um momento grave, em que todos se mostram solenes e os espíritos se conturbam. É quando ele surge, capanga a tiracolo, apressado e rapace - o agiota. O Ponto de Cem Réis é o abrigo anti-nuclear dos funcionários. Nada o destruirá. O Ponto de Cem Réis viverá eternamente.
(*) Conhecido logradouro situado em João Pessoa - PB.

Toilette

1. Quem garante que ao escovar os dentes eu não esteja escovando a alma? Não sinto o sabor de menta ou de clorofila. Muito menos o hexaclorofeno. Na boca, apenas, o gosto dos sonhos da noite insone. 2. Uma mão lava a outra e as duas (em concha) lavam o desgosto. 3. O pincel, o creme, a espuma a se espalhar na face descoberta. O gesto ritual de retirar da têmporas a espuma. A lâmina afiada a deslizar em meu disfarce oculto. 4. O pente põe bem comportados os fantasmas negros e brancos do pesadelo de ontem. Até que a noite volte a confundi-los.





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