- Água de chuva, chuva de verão (Poesias), s/e, 1986, João Pessoa.
Dicotomia
Junto aos condenados
à morte,
põem um sacerdote.
Nada obstante,
junto aos condenados
à vida,
põem um sacerdote.
Comemora-se.
Feito de gente num tempo e num espaço.
Homem contra mulher,
noite versus dia,
branco contra preto,
novo versus velho.
Como se, diferentes,
um, ao outro, dispensasse.
Como se, indiferentes,
sem o outro se passasse.
Sombra ou réstia?
Do ontem ou para o amanhã?
Dejeto ou óstia?
Exílio de Caim ou Canaã?
Que teu gesto seja.
Que tua palavra exprima.
Que teu silêncio cale.
Que tua ação transforme.
Lápide
Aqui vim a lume.
Não fui consultado.
Nunca reclamei.
Gostaria de viver,
arribar na seca,votar
voltar com a chuva.
(Água de chuva, chuva de verão, págs. 28 e 78)
